RESENHA -> Zero, por Ignácio de Loyola Brandão

E se a vida pudesse ser olhada de fora, como um noticiário? A escrita como um noticiário é a técnica empregada por Loyola aqui. Acontecimentos rápidos, as vezes postos em sequência até que ela seja quebrada abruptamente pelo desvio e por outro fato. Por sinal, a história acontece entre e um e outro pronunciamento oficial do governo da vez. E o texto literário é, como um jornal impresso, cheio de notas que estão nas laterais. São notas que as vezes são pura publicidade, dando ao livro um ar familiar na sua estranha peculiaridade estilística.

Uma forma inovadora precisa de um conteúdo que lhe faça jus para que a própria forma brilhe como parte constituinte do próprio conteúdo. Temos aqui a simplicidade José vivendo um país distópico, uma ditadura policialesca e moralizante. Tudo aos poucos se torna proibido, mas José precisa viver. Por isso ele respira e age como age. Sua curiosidade é sua redenção e sua perdição, é o elemento que faz a obra caminhar. José é uma incomum pessoa comum levada a fazer o que faz. E para alguém como José ser um rebelde, é porque a liberdade se tornou espetáculo de show de horrores. Até que nem isso mais. Matar, assaltar é o normal.

Tudo muito bem, mas ainda tem mais. Uma das melhores cenas de sexo da literatura brasileira está lá. Precisa estar lá, porque é rebeldia do poder viver o banal. Rosa precisa de José, José precisa de Rosa. A libido é escape, mas também resistência. Precisamos dos dois, porque a realidade parece ser cada vez mais uma distopia. A arte de Loyola é um alerta quando mostra o desespero que o destino escolhido parece fazer chegar. Até quando?

A edição lida é a 14 edição, da Global Editora. Não há nada de especial nela, exceto seu belo projeto gráfico. A ausência de orelhas e o formato longo ajudam a compor um ar modernoso proposto na fórmula da escrita do livro.

Não gosto muito dela. Disso, tenho certeza. Quero me afastar e não consigo. Sempre penso: hoje acabo tudo. Quando volto para casa, converso um pouco, percebo que é o contrário. Ela ri, eu gosto; ela diz bobagens, eu rio das bobagens; ela me beija, gosto do beijo; eu que tinha chegado para romper de uma vez, tendo a certeza de quela é a mulher que preciso, ou gosto, eu me esqueço.

p. 136

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s