RESENHA -> Abdias Nascimento – O Genocídio do Negro Brasileiro

Abdias Nascimento foi um intelectual, liderança e militante histórico do movimento negro brasileiro. Idealizador do Teatro Experimental do Negro, também atuou na política institucional como deputado e senador.

O Genocídio do Negro Brasileiro: Processo de um Racismo Mascarado é um livro-denúncia, profundamente marcado pelo seu contexto histórico, mas que se projeta além dele. O contexto de sua escrita é duplo: no Brasil a ditadura civil-militar marcava o auge da ideia de democracia racial, internacionalmente era realizada a FESTAC 77. O governo brasileiro vendia sua democracia racial enquanto Abdias, que quase teve negada sua participação no evento por pressão do governo ditatorial, desafiava o regime e falava sobre a realidade do negro no Brasil.

O trabalho da obra é o desmonte da farsa da democracia racial, demonstrando como ela é um mito conveniente para a morte cultural e socio-econômica dos vestígios da presença negra no Brasil. Desde a ideia de que a escravidão aqui foi menos dura do que em outros lugares, até a criminalização das religiões afro-brasileiras, passando pela situação da mulher negra sexualmente explorada e pela estratégia do branqueamento da raça (a imigração negra foi basicamente proibida no país enquanto se estimulava a imigração européia). Poucas coisas escapam ao olhar sincero e indignado de Abdias.

Mas o livro também ataca o racismo mais sutil, reverberado pela ciência quando constrói e propaga estereótipos vexatórios sobre o negro. Mais do que isso, o livro mostra o epistemicídio descarado na atitude do governo brasileiro na ausência de perguntas sobre raça nos dois censos anteriores. Nada muito diferente da posição de controle sobre cultura manifestada sobre a religião, exemplificada tanto pelas irmandades religiosas negras durante a escravidão quanto no fato de apenas nos anos 1970 a Bahia ter sido o primeiro estado a não mais requerer o registro de terreiros nas delegacias de polícia. Sem falar da pouquíssima presença do negro da universidade. Após a leitura do livro, não há como duvidar da tese que lhe serve de título.

Todos os dados e histórias se conectam na afirmação da existência do infame racismo brasileiro. Mas o livro não se limita a fazer o denúncia (o que por si só é um grande mérito), mas também a fazer propostas. Está no livro a proposta do ensino da história africana, tornada lei nos anos 2000. E também traça prognósticos sobre a cultura, algo que podemos vislumbrar em nossa época. É maravilhoso contatar ideias ganhando corpo.

Enfim, o livro é ótimo. É obrigatório para a pessoa que estude o racismo no Brasil, pois de fato e de direito é uma das obras que mais contribuiu para a retirada da máscara do racismo brasileiro. A edição lida é da Editora Perspectiva, conta com prefácio de Florestan Fernandes e posfácio de Elisa Larkin Nascimento (viúva de Abdias) fazendo um balanço da luta tantos anos depois da publicação da obra.

No Brasil, é a escravidão que define a qualidade, a extensão, e a intensidade da relação física e espiritual dos filhos de três continentes que lá se encontraram: confrontando um ao outro no esforço épico de edificar um novo país, com suas características próprias, tanto na composição étnica do seu povo quanto na especificidade do seu espírito – quer dizer, uma cultura e uma civilização com seu próprio ritmo e identidade.

Abdias Nascimento, p. 57

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