RESENHA -> Os Carbonários: memória da guerrilha perdida

Alfredo Sirkis foi um militante histórico do PV, da REDE, político, secretário municipal de meio ambiente do Rio de Janeiro, ativo até seu falecimento recente em julho de 2020 em um acidente de carro. Antes disso, foi membro da VPR uma das muitas organizações de guerrilha urbana atuante no fim dos anos 60 e começo dos 70. É sobre este período, da passagem de um estudante secundarista até a situação de guerrilheiro auto-exilado que constitui o recorte memorial deste livro já clássico no gênero da literatura sobre os anos de chumbo.

Se a promessa do livro é ser a memória de um ex-guerrilheiro, a obra paradoxalmente frustra e atende a expectativa. O prefácio de 1998 deixa claro que o autor mudou muito desde a época da publicação original e mais ainda desde os já longínquos anos de luta armada. O livro é honesto no seu retrato, sendo quase objetivo na tradução de uma perspectiva de um período que o autor mesmo fala que “não se orgulha, mas também não se envergonha”. Então não, não há palavras de ordem em favor de socialismo ou sequer da causa ecológica, o que certamente não atende os desejos um militante esperançoso de incentivos ou de validar seu próprio ponto de vista. Mas em nenhum momento o livro é frio, pelo contrário.

O que o sustenta é seu bom ritmo, escrita coloquial sem excesso de gírias (apesar de alguns termos datados), a interessantíssima história contada. O livro não responde diretamente a razão de Sirkis, um jovem estudante de classe média frequentador de um dos melhores colégios da ex-capital da república envolver-se na guerrilha urbana. Mas sem dúvida traz o “como”, trazendo com um nível de detalhes a trajetória do colégio até as espetaculosas ações de sequestro dos embaixadores da Suíça e da Alemanha Ocidental.

O caminho é longo, 504 páginas, mas recompensador. É delicioso acompanhar a conversão de um lacerdista em guerrilheiro. Mas mais interessante é saber a pequena história da grande história dos últimos dias do movimento estudantil atuando abertamente (antes do AI-5). Temos aí o retrato do porque o grupo de secundaristas se interessou pela guerrilha, pressionados pela repressão. As ações de sequestro chamam a atenção por si mesmas, mas os dilemas do cativeiro entre os militantes torna o livro mais próximo do real. Organizar listas de presos? Debate. Lamentos pelos que “caíram”? Sentimos juntos. Acompanhar a Copa de 70? Também.

Mas é nos capítulos finais que a obra realmente brilha. A convivência com o notório Carlos Lamarca (o homem mais procurado do país, e que o autor demorou para reconhecer por conta do uso de codinomes) e com o carismático embaixador suíço poderiam ter sido obras próprias. Aquela ação marca um ponto de virada importante para o autor e para os movimentos de guerrilha. Planejada como meio de salvar companheiros dos porões da tortura, os mais de 30 dias de cativeiro, a demora de contato do governo e o sentimento de que cada dia se chegava mais perto são a última nota da guerrilha urbana no país. O Lamarca ganha humanidade no acompanhamento da sua reflexão fracasso da ação, ainda que ela tenha resultado na libertação de 70 presos políticos, pelo inegável fracasso do estado da luta contra a ditadura e do erro que foi a opção de abandono do trabalho com as massas feitas alguns anos e capítulos antes. É um momento especial do livro. Para o autor foi o estopim de seu “desbunde”, para o capitão foi o motivador de sua ida posterior para o nordeste recuperar o tempo perdido (onde é encontrado e morto pelos militares).

É claro que por se tratar de um livro de memórias estamos presos a um ponto de vista naturalmente suspeito, mas por si só acompanhar o já mencionado particular da grande história é um convite para viajar no tempo. Se a história é rica e carregada de experiências dignas de inveja o convite é irrecusável.

A edição lida é da Editora Record, especificamente uma edição de bolso publicada em 2008. Curiosamente a edição não conta com o subtítulo. A capa traz uma foto de Sirkis jovem treinando com uma arma de fogo, sendo talvez a única coisa que chama a atenção logo de cara. A edição conta com um posfácio próprio, o prefácio à edição de 1998 e o prefácio original. Em uma pesquisa rápida vi que existe pelo menos mais uma edição com novo prefácio. O livro é competente em trazer um bom número de notas sobre os personagens, falando dos seus feitos na época e do presente à época da publicação. A obra original é de 1980, tendo recebido o prêmio Jabuti da sua categoria no ano seguinte.

— Vamos ficar em contato por carta e ver se a gente se encontra pra continuar as nossas discussões. Pensar melhor nas coisas. Tem que mudar tudo.

A frase ficou pairando pela salta de entrada, à saída de palco do primeiro dos atores. Na madrugada seguinte, após breve ato final, as cortinas se fechariam, de vez, sobre aquele parêntese da vida, de quarenta dias de verão carioca.

Alfredo Sirkis, p. 396.

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