REPUBLICANDO – Azul Chuvoso

Um dia pensei que fragmentos do paraíso poderiam sozinhos trazer mais amor e felicidade que a soma da eternidade. Acreditei que dos pedaços eu faria um novo e melhor inteiro. Te vi como um presente dos deuses, a nova fundação dos meus sonhos. Até o fim eu acreditei. Por que você me abraçou e prometeu estar comigo?

Nos dias felizes quis fazer deste pequeno oásis um oceano que espelhasse todos os céus. Não pensei que também traria o sal que faria até as lágrimas secarem. Chorei demais e também vi você chorar. Mas o que não se vê é o mais importante: não te ouço mais, não te toco mais. Nada será esquecido e por isso dói tanto.

Quero paz e um pouco de prosperidade, o que sempre quis. Não quero mais nem amor. Diante do azul chuvoso da melancolia talvez não seja possível nem isso. Você sabe o que quero dizer quando falo assim. E não é só você, mas aquela outra e aquele um, pecados e arrependimentos. Eu queria ser perfeito para que estivessem ainda comigo. Você estaria? Faz tempo que eu aprendi que as coisas mais malvadas se disfarçam de formas sutis. E entro em confronto comigo mesmo se penso que você talvez seja um destes anjos demônios. Depois de balançar a cabeça concluo que as lembranças da sua companhia fazem sempre surgir sua imagem quando fecho meus olhos. Sinto sua falta. Nenhum mal produz cicatriz assim.

Há que se falar ainda do seu cheiro bom, perpetuamente repousando na minha alma, da sua cabeça no meu colo nos dias de sol no parque. Ou dizer que naquela lua que te carreguei nas costas foi como se minhas costas estivessem pela primeira vez livres: contigo eu não teria mais que carregar o mundo. Dessas coisas você sabe, eu existi. Mas sei que foi meu erro acreditar que um novo mundo construído da matéria-prima dos meus mil anos de sonhos seria possível.

Tenho que andar de máscara para cobrir o que me falta. Uma máscara de mim mesmo. Será que é assim para todos os românticos Pierrot? É perturbador olhar o que está quebrado, não queremos incomodar quem é feliz enquanto estamos condenados. O que segue agora neste resto da vida romântica só faz querer morrer, pois o amor que resta é de um só. É desespero. Não haverá mais nada após os sonhos terem sido consumidos.

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Este texto foi publicado originalmente no tumblr.

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