Repetição não repetitiva, leveza e vida

Uma repetição não precisa ser repetitiva. Longe de se tratar de pleonasmo, é uma constatação quando se faz um exame de certas estruturas narrativas. Repetição não é sinônimo de ciclo, mas todo ciclo envolve uma repetição. O que se repete no ciclo é uma mesma cadeia de eventos, onde o fim parece encaminhar a premissa inicial. Já uma repetição simples pode envolver ou não uma cadeia de eventos que se amarram por uma gênese. Repetir as vezes é simplesmente olhar a mesma coisa uma segunda vez. Em ambos os casos o tempo cronológico deixa de ser único.

A leitura de A Insustentável Leveza do Ser traz uma repetição não repetitiva, onde diversos eventos acontecem uma segunda vez. Mas esta segunda vez é distinta da primeira, porque envolve o ponto de vista de outro personagem. Com isso a mesma coisa acaba por trazer diferentes cargas de significado. A estrutura em que a repetição é colocada é em grande parte responsável pelas simpatias e antipatias pelas personagens. Há um ganho narrativo que faz da obra de Kundera ser o que é.

Um efeito nem sempre óbvio da repetição não repetitiva literária de Kundera é ser perceptível apenas ao leitor, por isso ela é estrutural. Enquanto os personagens vivem suas vidas normalmente, o leitor é manipulado a perceber a repetição, fazendo com que o própria linha reta da dinâmica entre Tomáš e Tereza (por exemplo) seja acessível ao leitor. Pela exposição dos diferentes pontos de vista sabemos como e porque as coisas são como são. A segunda leitura da obra é feita sem que seja feita.

Várias doutrinas religiosas e filosóficas pensam a vida como presa a ciclos. Não sei se tais ciclos são reais ou não, embora seja certamente possível identificar padrões que se repetem. O fato é que quando várias pessoas contam uma história qualquer em que ambas são personagens temos uma amostra da repetição não repetitiva. Quase inevitavelmente vai haver alguma divergência, como na obra de Milan Kundera vai haver acréscimos e omissões, tons diferentes em que a história é contada. Todavia o núcleo essencial sempre faz dizer que a história contada por Beltrano sobre sua ida ao cinema com Fulana é também a história da ida de Fulana ao cinema com Beltrano.

O núcleo comum essencial, ou seja, a participação na mesma história não é uma história de personagem/pessoa. A ênfase para a percepção da repetição está no evento comum ao passo que o foco pessoal precisa da divergência para dar pessoalidade ao mundo, tornando uma história a “minha história”. Considerando que estamos ao mesmo tempo vivendo nossa vida e interagindo aos outros, podemos sem dúvida pensar que estamos no aparente paradoxo de construirmos nossa vida em uma estrutura de repetição não repetitiva. Mas ele é aparente, pelos motivos já explanados antes. Se ela não é aparente, afirmar ou não a realidade da repetição volta se tornar uma posição religiosa ou filosófica.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s