Um olhar benjaminiano sobre Manu Chao

Manu Chao é um artista que foi relativamente popular no Brasil do final dos anos 90. Filho de pai galego, mãe basca, nascido na França onde seus pais se refugiavam da ditadura franquista. Sua música mistura rock, rap e ritmos latinos, tudo somado a gravações de falas de pessoas do povo e as vezes de algumas figuras mais conhecidos como o Subcomandante Marcos. Seus vocais transitam em várias línguas, como inglês, francês, espanhol, galego, português, com letras denotando um fino engajamento social, ironia e sarcasmo. Nos anos 90 ele era a globalização, mas uma globalização pautada pela diversidade e pelo diálogo de culturas e não apenas da imposição dos interesses econômicos das grandes potências. Ele foi caso raro desse tipo de artista com clipes passando na MTV e algumas músicas tendo divulgação em grandes rádios.

Ouvir Manu Chao, especialmente os dois primeiros álbuns, é uma viagem no tempo e ao tempo das possibilidades. Aquelas canções despertam a nostalgia, mas também ao que poderia ter sido e deixou-se de realizar. Aquele período de máximo sucesso de Manu Chao também era o tempo de máxima esperança na America Latina, enquanto a posterior perda de popularidade do artista acaba coincidindo a mitigação da esperança em projetos de poder pelo poder e o peleguismo de quem iria mudar o mundo.

Ao longo da primeira década dos anos 2000 tudo foi se apequenando, a ambição de transformar passou a ser apenas de administrar o poder. Acompanhamos a energia da esperança sendo transformada em graus variados de decepção. Em algum momento nos conformamos para não assumir que nos enganaram com a primavera (trecho de uma música do segundo álbum de Manu). No livro “Melancolia de Esquerda”, Enzo Traverso comenta a substituição do sonho pela pura responsabilidade. Talvez seja uma postura cínica diante das consequências daquilo que ficou claro 20 anos depois: o mundo mudou sim, mudou para pior. Ainda há mais clandestinos e ilegais pelo mundo. Todos cercados pela infinita tristeza. Nem poderia ser diferente diante de tantos ideais abandonados pelo caminho.

Mas mesmo que saibamos disso, existem aqueles que se incomodam com a pergunta “por que deixamos de sonhar?” O sonho ainda está aqui. É dolorido perguntar, mas só sente dor quem está vivo. Ouvir Manu Chao em 2020 traz o reconhecimento da derrota, mas também deveria acordar toda a contestação de ontem que jaz adormecida. Não é e não deve ser apenas nostálgico. Ouvi-lo atualmente deve conectar demandas do pretérito e do presente diante da lição de um mundo onde a derrota é traduzida em várias dimensões de farsa e tragédia. O mundo seria tão melhor se a contestação tivesse sido também revolução, mas o mundo de hoje precisa da revolução para não ser catástrofe. Só assim os mortos e os vivos terão paz.

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