RESENHA -> Darcy Ribeiro – O Povo Brasileiro: A formação e o Sentido do Brasil

DARCY RIBEIRO dispensa apresentações. Um dos grandes intelectuais brasileiros do século XX, também político ativo na defesa dos seus ideais. Um homem que ousou pensar o Brasil a partir da brasilidade, sem condenar aquilo que vem de fora. Além de pensar, ele planejava e tentava transformar o país: lutador da causa indígena, defensor dos mais pobres, proponente de uma outra educação e um outro modo de viver e tratar sua gente.

EDIÇÃO: a edição lida é a da Global Editora, mais especificamente a terceira edição (de 2015 e atualizada conforme o novo acordo ortográfico da língua portuguesa) e quinta reimpressão (de 2019). Não há nada de especial, sendo bem básica. Também não há defeitos aparentes da edição ou erros de revisão. A capa, o quadro Operários de Tarsila do Amaral, é uma escolha adequada considerando a temática do livro.

TEXTO: o livro é uma espécie de síntese da bibliografia de Darcy. Como tal ela agrega várias facetas, a antropológica, a histórica, sociológica, filosófica. Tudo se amarra uma ideia ambiciosa, traçar a origem do povo brasileiro. Não há uma limitação em passar a já conhecida gênese da soma do índio com o negro e o europeu, mas a preocupação fundamental é trazer a crítica de como esta relação chamada povo brasileiro se formou a partir da protocélula (termo empregado pelo autor) inicial tupi-lusitana. Está lá na obra os modos de produção, o elemento cultural, a interação com o meio ambiente, a comparação com outros povos. Em certo momento o autor comenta que o Brasil se parece muito mais uma feitoria do que uma sociedade, de que somos uma espécie de proletariado externo. Com a leitura da obra fica difícil somada ao noticiário fica difícil discordar do pensador.

Se há a tese de que somos um só povo, de modo algum há esquecimento das nossas muitas e óbvias diferenças. O autor sabendo delas primeiro trata de amarrar muito bem aquilo que nos une: a submissão colonial e neocolonial, uma economia mais ou menos integrada, alguns traços culturais. É um achado falar da constituição de uma identidade a partir da quebra de outras identidades, os já mencionados elementos indígena, africano, europeu. As diferenças regionais e étnicas, por exemplo, seriam apenas facetas de um mesmo povo unido pela história e demais elementos da brasilidade.

Não há concessão para uma neutralidade frívola. O autor não esquece a dor de ninguém, faz referência e deferência às nossas revoltas, embriaga-se na tentativa de fazer brotar um pensamento nacional. Em vários momentos se sente a paixão e a indignação típicas da figura de Darcy, a qual muitas vezes parece tentar contaminar aquele que lê. Eu mesmo senti raiva, ódio e até sorri em várias passagens da obra. Apesar de retratar um país sofrido no final há otimismo, uma esperança de que o Brasil vai para dar certo. A base dela é sutil, mas existe.

Tanta ambição cobrou caro do autor e também apresenta sua conta para pessoas desacostumadas a uma leitura mais densa. No prefácio Darcy comenta as várias tentativas de escrever a obra, chegando a jogar fora uma versão basicamente pronta. Talvez irrita a alguém uma tendência do autor repetir várias vezes algumas ideias (mostrando como elas se amarram em diferentes contextos da obra). Também pode afastar um leitor inicial a recomendação implícita de um pouco de conhecimento da história do Brasil, mesmo que absolutamente não seja uma limitação inexpugnável.

Enfim, uma obra extraordinária. Deixo o trecho abaixo para sentir um pouco do gosto da obra.

“(…) Todos nós, brasileiros, somos carne da carne daqueles pretos e índios supliciados. Todos nós, brasileiros, somos por igual, a mão possessa que os suplicou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal que também somos. Descendentes de escravos e de senhores de escravos seremos sempre servos da malignidade destilada e instalada em nós, tanto pelo sentimento da dor intencionalmente produzida para doer mais, quanto pelo exercício da brutalidade sobre homens, sobre mulheres, sobre crianças convertidas em pasto de nossa fúria.

A mais terrível de nossas heranças é esta de levar sempre conosco a cicatriz de torturador na alma e pronta a explodir na brutalidade racista e classista. Ela é que incandesce, ainda hoje, em tanta autoridade brasileira predisposta a torturar, seviciar e machucar os pobres que lhes caem às mãos. Ela, por, provocando crescente indignação, nos dará forças, amanhã, para conter os possessos e criar aqui uma sociedade solidária.”

RIBEIRO, Darcy in 2015, p. 91.

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